sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Quer matar as pessoas de fome em pleno ano de 2016? Adote o socialismo por Jeffrey Tucker



Uma das maiores façanhas da mente humana foi ter encontrado uma solução para aquele que é o maior desafio da nossa vida aqui na terra: ter o suficiente para comer. Comparado a isso, ter um teto sob o qual viver e roupas para cobrir o nosso corpo são coisas fáceis de serem obtidas: você encontra uma caverna, mata um animal, arranca sua pele e você já tem abrigo e roupa.
Por outro lado, encontrar comida sempre foi um problema diário para os seres humanos, e nunca foi resolvido definitivamente.  Mesmo no exemplo acima, o animal morto lhe garantirá um estoque para apenas um dia de comida.  Mas você precisa de muito mais do que apenas um grande estoque; você precisa criar um sistema que forneça um fluxo contínuo de alimentos.
Em 2016, pode-se dizer que finalmente já temos este sistema em funcionamento.  E ele é capaz de sustentar 7,4 bilhões de pessoas.  Ele é hoje tão robusto, que os países desenvolvidos estão enfrentando um problema oposto à fome: a obesidade, algo que, na história da evolução social, é um bom problema para se ter.
A criação desse sistema — o qual você pode vivenciar em qualquer mercearia ou quitanda do seu bairro — refutou todas as pavorosas expectativas de legiões de céticos catastrofistas do século XIX.  À época, o mundo vivenciava uma explosão demográfica.  A população crescia a um ritmo até então inimaginável.  Como essas pessoas seriam alimentadas?  A maioria dos intelectuais da época não conseguia imaginar como isso seria possível.
E, no entanto, foi possível.  Tão complexo, desenvolvido e produtivo se tornou o atual mercado global de alimentos, que a verdade é que é extremamente difícil quebrar esse sistema.  Criar uma inanição em massa em pleno ano de 2016 é algo que requer um esforço extraordinário.  É algo que requer a adoção de um abrangente sistema de coerção que ataque exatamente todas aquelas instituições que possibilitam a abundância de alimentos: a propriedade privada, a liberdade de empreender, o comércio internacional, a moeda, o sistema de preços livres, e a inovação comercial.
O socialismo ataca novamente
Infelizmente, esse sistema coercivo e destruidor existe.  Ele atende pelo nome de "socialismo".  Ele está sendo aplicado hoje em um país que outrora era rico, confortável e civilizado; um país que possui as maiores reservas de petróleo do mundo.
Sim, parece ficção.  Mas não é.  Em um país específico, ao longo de 16 anos de implacável destruição da propriedade privada, da moeda, do sistema de preços, da liberdade de empreendimento, e do comércio, tudo isso feito gradualmente em um sanguinolento passo a passo, o socialismo gerou inimagináveis cenas de sofrimento humano.
Esse país, obviamente, é a Venezuela.  Tudo começou sob o governo de Hugo Chávez e agora continua sob a regência de seu sucessor, Nicolás Maduro.  Por piores, corruptas e despóticas que fossem suas intenções, não é crível imaginar que ambos quisessem criar propositalmente o atual cenário de inanição que se vê no país.  Ao contrário, a dupla prometeu implantar todas aquelas promessas de sempre do socialismo: justiça, igualdade, liberdade, e o fim da exploração. 
No entanto, se você analisar o que está ocorrendo na Venezuela, verá a abolição de tudo aquilo que podemos chamar de 'civilização'.
Jamais conseguiria colocar em melhores palavras do que este recente artigo do The New York Times:

CUMANÁ, VENEZUELA - Com caminhões de entrega sujeitos a constantes ataques, os alimentos na Venezuela agora são transportados sob proteção de guardas armados. Soldados patrulham padarias. A polícia dispara balas de borracha em pessoas desesperadas que invadem armazéns, farmácias e açougues. Uma menina de 4 anos foi morta a tiros quando gangues lutavam por comida.
A fome está convulsionando a Venezuela.
Em Cumaná, berço de um dos heróis da independência, centenas de pessoas invadiram dias atrás um supermercado, gritando que queriam comida.  Elas quebraram uma grande porta metálica e invadiram a loja.  Roubaram água, farinha, cereais, sal, açúcar, batatas e tudo mais que encontravam, deixando para trás geladeiras quebradas e prateleiras reviradas.
E mostraram que, mesmo em um país com a maior reserva petrolífera do mundo, as pessoas podem se rebelar caso falte comida.
Só nas duas últimas semanas, mais de 50 saques, protestos e revoltas por alimentos eclodiram na Venezuela.  Inúmeros estabelecimentos foram saqueados ou destruídos. Ao menos cinco pessoas morreram. [...]
O país busca desesperadamente ter o que comer. O colapso econômico dos anos recentes deixou a Venezuela incapaz de produzir alimentos suficientes ou de importar o que precisa. Cidades estão sob vigilância militar em consequência do decreto de emergência do presidente Nicolás Maduro, o homem que Chávez escolheu para dar prosseguimento à sua revolução antes de morrer, três anos atrás.
"Se não houver comida, haverá mais rebeliões", disse Raibelis Henríquez, de 19 anos, após esperar todo o dia na fila do pão em Cumaná, onde pelo menos 22 estabelecimentos comerciais foram atacados em um único dia na semana passada.
Mas enquanto a convulsão e os tumultos se espalham pelo país alarmado, é a fome o que permanece sendo a constante fonte de inquietação.
Um assustador índice de 87% dos venezuelanos diz não ter dinheiro suficiente para comprar comida, segundo o mais recente levantamento da Universidade Simón Bolívar.
Em média, 72% do salário da população vem sendo gasto na alimentação, de acordo com o Centro de Documentação e Análise Social. Em abril, descobriu-se que uma família precisaria do equivalente a 16 salários mínimos para se alimentar adequadamente.
Pergunte a pessoas em Cumaná quando foi a última vez que fizeram uma refeição e muitos responderão que não foi naquele dia.
Entre estes estão Leidy Cordova, de 37 anos, e seus cinco filhos — Abran, Deliannys, Eliannys, Milianny e Javier Luis —, com idade entre 1 e 11 anos. Na noite de quinta-feira, toda a família não comia desde o almoço do dia anterior, quando Leidy fez uma sopa de pele de frango e gordura que conseguiu comprar mais barato no açougue.
"Meus filhos me dizem que estão com fome", disse Leidy, ante o olhar das crianças. "E tudo que posso dizer é que sorriam e aguentem."
Outras famílias se veem na situação de ter de escolher quem vai poder comer. Lucila Fonseca, de 69 anos, sofre de câncer linfático; sua filha, Vanessa Furtado, tem um tumor no cérebro. Apesar de também estar doente, Vanessa, em muitos dias, abre mão da pouca comida que tem para que a mãe não fique sem as refeições.
"Eu era muito gorda, não sou mais", disse Vanessa. "Estamos morrendo aos poucos." A mãe acrescentou: "Estamos fazendo a dieta-Maduro: sem comida, sem nada". [...]
Campos de cana-de-açúcar por todo o país estão sem cultivo por causa da falta de fertilizantes. Sem uso, máquinas agrícolas enferrujam nas fábricas estatizadas. Produtos básicos como milho e arroz, antes exportados, agora têm de ser importados e chegam em quantidades que não suprem a demanda.
Em resposta, Maduro apertou o cerco à rede de abastecimento. Usando os decretos de emergência que assinou neste ano, o presidente pôs a maior parte da distribuição sob o controle de brigadas de cidadãos leais à esquerda, medida considerada pelos críticos como reminiscente do racionamento alimentar de Cuba.
"Isso significa, em outras palavras, que se você for meu amigo, meu simpatizante, você tem comida", disse Roberto Briceño-León, diretor do Observatório da Violência Venezuelano, grupo de direitos humanos.
É uma nova realidade para Gabriel Márquez, de 24 anos, que cresceu em anos prósperos, quando a Venezuela era rica e prateleiras vazias, algo inimaginável. Ele estava parado em frente a um supermercado destruído em Cunamá, com garrafas quebradas, caixas e prateleiras espalhadas pelo chão. Algumas pessoas, entre elas um policial, reviravam os destroços à procura de algo aproveitável.
"No carnaval, fazíamos guerra de ovos", disse Gabriel. "Hoje, um ovo é como ouro."
Na pequena cidade pesqueira de Boca de Uchire, centenas de pessoas se reuniram numa ponte protestando contra a falta de alimentos. Queriam falar com o prefeito. Como ele não apareceu, saquearam um bar de chineses, estourando a porta com picaretas. Por trás da ação estava embutida a raiva à potência global que nos últimos anos emprestou bilhões de dólares à Venezuela. "Os chineses não quiseram nos vender", disse um taxista que olhava a multidão saquear. "Então, queimaram seu negócio."
Nem sempre fica claro o que provoca as rebeliões. Será apenas a fome? Ou é uma raiva mais ampla surgida num país que está desmoronando?
Inés Rodríguez não tinha certeza. Ela lembra que gritou para a multidão que queria saquear seu restaurante na quarta-feira à noite e lhes ofereceu todo o frango e o arroz que havia lá em troca de eles não quebrarem os móveis e a caixa registradora. Eles recusaram a oferta e simplesmente a empurraram para o lado e depredearam tudo, disse Rodríguez.
"Hoje vivemos o encontro da fome com o crime", disse.
Enquanto ela falava, três caminhões com guardas armados passaram, todos adornados com fotos de Chávez e Maduro.
Os caminhões carregavam comida.
"Finalmente eles chegaram aqui", disse Rodríguez. "E veja o que foi preciso para isso. Foi necessária essa revolta para conseguirmos alguma coisa para comer."
Eis alguns depoimentos contidos na reportagem:

"Tenho que sair de casa às 5 da madrugada, sob risco de ser morto, para enfrentar filas o dia inteiro e só voltar com dois ou três itens de comida", relata Jhonny Mendez.  Mendez vive em Caracas com a mulher Leida Bolivar e os filhos Yoelver Barreto, Yorver Barreto, Yoalvier Barreto.
"Estamos comendo menos porque não encontramos comida nos mercados e, quando elas estão disponíveis, as filas são infernais e não conseguimos comprar. Atualmente, não fazemos três refeições. Com sorte, conseguimos comer duas vezes ao dia", diz Victoria Mata.
"Estamos há cerca de 15 dias comendo pão com queijo ou arepa — prato típico venezuelano — com queijo. Hoje, nos alimentamos pior do que antigamente porque não se acha comida e, quando há disponibilidade, não podemos pagar", reclama Lender Perez ao lado da mulher Isamar Ramirez e dos filhos Lismar e Lucia
"Estamos nos alimentando muito mal. Por exemplo, se temos farinha de milho, comemos arepas o dia todo. Mesmo quando temos dinheiro não encontramos comida para comprar. E quando encontramos, eles são caro demais", relata Rosa Elaisa Landaez ao lado de seus filhos Albert Perez, Yeiderlin Gomez e Abel Perez
"Antes, conseguíamos comprar comida para até 15 dias. Hoje, só cobrimos nossas necessidades diárias", diz Romulo Bonalde. Ele e a mulher Maria de Bonalde têm 9 itens alimentícios na despensa de casa
"Comer se transformou em algo de luxo na Venezuela. Antes, nosso dinheiro comprava roupas e outros itens. Hoje, vai tudo em comida", aponta Yaneidy Guzman ao lado das filhas Steffany Perez, Fabiana Perez e Esneidy Ramirez.
"Somos uma família grande e está cada vez mais difícil para conseguirmos comer", diz Ricardo Mendez.
A seguir, um vídeo que faz uma compilação das rotineiras cenas de violência e de saques a estabelecimentos comerciais e a caminhões que transportam comida.




E, após a morte de um ente, as famílias enfrentam outro tormento.  Segundo essa reportagem do The Washington Post:

"Meu irmão era um homem decente", disse com tristeza Julio Andrade, enquanto esperava no necrotério de Caracas a chegada do corpo do irmão mais velho. O cadáver de Rubén Dario, de 55 anos, fora encontrado dois dias antes numa rodovia perto da cidade. Havia sido sequestrado e morto. O sofrimento da família, porém, não acabava ali. "Além da dor desta situação terrível, temos de enfrentar o preço do funeral", queixou-se Andrade.
Na Venezuela, a vida vale pouco, e morrer sai caro. Segundo o Observatório Venezuelano da Violência, houve quase 28 mil homicídios no país em 2015, dos quais 5.250 na capital. Caracas é a mais violenta das grandes cidades do mundo, segundo levantamento anual da ONG mexicana Conselho de Cidadãos para Segurança Pública e Justiça Criminal.
Num país em que a inflação galopou para 700% e a economia encolheu 10% em 2015, a população luta para pagar por comida, remédio e outras necessidades. Com a escassez de muitos produtos e uma moeda desvalorizada, tudo ficou mais caro. Enterros não são exceção.
Para organizar um funeral e sepultamento decentes, uma família precisa de pelo menos 400 mil bolívares — cerca de US$ 400 no mercado paralelo, que determina o preço de quase tudo para a maioria dos venezuelanos. A quantia é astronômica para a Venezuela, onde o salário mínimo é de 15 mil bolívares — ou US$ 15. As funerárias também enfrentam dificuldades, pois as pessoas nunca conseguem pagar a conta.
Conclusão
Algumas pessoas com frequência me perguntam por que eu sou tão passional quando o assunto é liberdade de empreendimento e livre mercado.  Veja aí a resposta prática.  Em última instância, a defesa da liberdade e do livre mercado é uma defesa da qualidade de vida na terra.  Vamos prosperar ou vamos morrer de fome?  É disso que se trata a economia.  E não é um problema abstrato.
Qualquer país do planeta é capaz de criar a fome em massa.  Tudo o que é necessário fazer é seguir o caminho da Venezuela.  Ataque a propriedade privada, persiga os empreendedores e comerciante, destrua a moeda, extinga o sistema de preços, acabe com o comércio internacional, estatize empresas, mande para a cadeia os seus opositores, e desmantele aquele sistema de liberdade natural que alimenta o mundo.
Isso é o socialismo.  É o caminho garantido para o inferno na terra.

Jeffrey Tucker é o CEO do Liberty.Me.  É também autor dos livros It's a Jetsons World: Private Miracles and Public Crimes e Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo




fonte: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2453