quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Trabalhadores não têm como voltar para casa após crise na obra do Comperj








Complexo grandioso da Petrobras tem salários atrasados, dívidas trabalhistas e fila de desempregados. Cidade também sofre com problemas.

Milhares de pessoas atraídas pelas oportunidades de uma obra grandiosa da Petrobras estão agora no prejuízo no município de Itaboraí, Região Metropolitana do Rio. A cidade cresceu e os novos moradores investiram acreditando no sucesso do complexo industrial do Comperj. Só que agora a realidade são salários atrasados, dívidas trabalhistas e fila de desempregados. Quem acreditou na promessa não tem dinheiro nem para voltar para casa.
As obras do Complexo Petroquímico de Itaboraí atraíram milhares de trabalhadores do Brasil inteiro. A população da cidade inchou: cresceu 21% nos últimos 15 anos, segundo o IBGE.
Cássia Moreira foi do Espírito Santo com o marido para trabalhar como soldadora. Ela está sem receber e hoje vende empadinhas para pagar o aluguel. “Infelizmente a gente vai ter que ficar aqui, porque além de não pagar a empresa está segurando nossas carteiras. Já vai fazer dois meses agora dia cinco e sem expectativa nenhuma, porque eles não falam nada com a gente, não dão satisfação, não comunicam nada”, afirma.
Junto com a desaceleração das obras do Comperj, o sonho de uma vida nova virou pesadelo para milhares de pessoas. Na semana passada, o taxista Leandro Andrade registrou em fotos filas gigantescas de ex-funcionários do complexo para formalizar a demissão.
“De 15, 20 dias para cá tenho reparado isso de mais forma, cada dia que passa. Todo dia mesmo um movimento muito grande e a cidade esvaziando”, conta.
Bem em frente à mais movimentada avenida de Itaboraí, a maior pousada da cidade foi construída logo após o início das obras do complexo petroquímico, há sete anos. O prédio tem capacidade para abrigar 264 hóspedes, e o empreendimento foi bem sucedido. A taxa de ocupação manteve-se em 95%, mas de outubro para cá o negócio começou a dar prejuízo.
As empresas terceirizadas da Petrobras deixaram de fazer os pagamentos pela hospedagem de seus funcionários e eles tiveram que deixar a pousada. A taxa de ocupação caiu para 10%, e a dívida das empresas hoje é de aproximadamente R$ 500 mil.
Ao todo, 23 funcionários do hotel já foram demitidos. Para manter em dia o salário dos outros 17, o dono da pousada decidiu vender móveis e eletrodomésticos. “Honrar com nossos compromissos, nossos credores e funcionários. Porque é complicado a gente dever principalmente para a pessoa que trabalhou, a gente tem que honrar”, ressalta Marcos Paulo Silva.
Mesmo com dívidas e com a pousada esvaziada, ele decidiu ajudar cerca de 40 ex-funcionários do Comperj, que agora estão hospedados de favor. É o caso de Marcos José da Silva, que foi de Campinas e está com três meses de salários atrasados.
“Não aguento mais. Minha sobrevivência está sendo a minha filha, que está depositando a cada 15 dias R$ 300 na minha conta. Hoje mesmo estão acabando esses R$ 300, não sei o que eu vou fazer. Acho que isso é humilhante”, lamenta o coordenador de comissionamento.
O Comperj começou a ser construído com a promessa de ser o maior polo petroquímico do país, tanto que muita gente foi atrás desses investimentos.
O projeto inicial previa duas refinarias e outras unidades petroquímicas. A expectativa era começar o refino e a produção de derivados de petróleo em 2012.
O custo previsto inicialmente era de US$ 8 bilhões, mas problemas com licenciamento ambiental e desapropriações atrasaram o projeto. A inauguração agora está prevista para dezembro de 2016 e o custo saltou para US$ 13,2 bilhões.
Mesmo assim, apenas uma refinaria estará em operação, a Trem 1, que, segundo a Petrobras, vai processar 165 mil barris de petróleo por dia.
Hoje, segundo a Petrobras, 81% por cento da obra estão concluídos.




fonte: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/02/trabalhadores-nao-tem-como-voltar-para-casa-apos-crise-em-obra-no-rj.html