quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

De: Ucho Haddad – Para: Dilma Rousseff – Assunto: O Brasil está cansado de mentiras


(*) Ucho Haddad –
Presidente, desde já peço a devida licença para dispensar a formalidade do tratamento que o cargo que ocupa exige, mas tratá-la-ei excepcionalmente por “você”, pois do contrário o texto não flui. Não usarei o termo “querida” porque não lhe conheço pessoalmente, não tenho intimidade para tanto e nem é esse o sentimento que nutro. O que não significa que lhe odeie ou lhe queira mal. Saiba que desejo o bem até mesmo aos inimigos, aos que me traíram, aos que me deram as costas. Enfim, à turma do lado de lá. Apenas temos posições contrárias. Sem contar que você manda e eu não obedeço.
Dilma, quando você foi pega de surpresa por um câncer linfático, torci por sua recuperação. Creio que fui o único jornalista do “Partido da Imprensa Golpista” (o termo é invenção dos jornalistas chapa-branca) que lhe defendeu de ataques sórdidos de alguns setores da mídia. Uma coisa é a figura política, a candidata, outra é o ser humano. Sei exatamente o que passou, como também sei que não é fácil. Afinal, vivi situação semelhante. Confesso que fiquei feliz por sua recuperação. Como escreveu certa vez o genial João Guimarães Rosa, “o querer-bem não tem beiradas”.
Dilma, você por certo deve pensar que o meu maior desejo é acordar, sentar-me diante do computador e escrever contra o seu governo e o seu partido. Enganou-se, porque não é esse o meu sonho de consumo. Sonho em acordar todos os dias e ser obrigado a procurar algum assunto que sirva de base para as minhas escritas, mas nem isso o PT me deixa fazer. Acordo e encontro um amontoado de besteiras, muitas das quais têm levado o Brasil ao atraso, ao descompasso, ao ridículo.
Como sofro de uma doença chamada coerência, que por sorte não tem cura, sou obrigado a escrever aquilo que seus assessores não gostam e possivelmente você também não. Paciência, ainda vivemos em uma democracia, mesmo que de mentirinha, e enquanto o totalitarismo não voltar a soprar por aqui exercerei o meu direito constitucional da livre manifestação do pensamento. Sem ofensas ou rapapés, como fazem alguns integrantes da tropa de choque do PT, que me atacam quando discordam das minhas ácidas e contundentes críticas. Mas reconheça, Dilma, mesmo não gostando do que escrevo, que de incoerência não sofro. Também não sou esquizofrênico a ponto de ter escolhido você como inimiga para ter com quem digladiar diariamente. Ainda estou são e com as faculdades mentais sob controle.
Não ficaria contrariado se o dia rompesse e nada tivesse para escrever sobre política, o meu tema predileto, o meu “ópio” redacional. Isso significaria que o Brasil encontrou o rumo para ser o país do futuro, cantilena que ouço há pelo menos cinco décadas. Ficaria tranquilo pelos meus filhos, pelos meus futuros netos, pelo seu neto, por todos os brasileiros de bem.
Com certeza temos ideologias antagônicas, mas saiba que não sou injusto. Erro às vezes, afinal sou humano, diferentemente do seu “companheiro” Lula, o semideus que jamais erra. Mas não tenho qualquer dificuldade para reconhecer meus próprios erros. Sabe, Dilma, a vida me ensinou que errar faz parte da receita do acerto, é o ponto de partida para o ser humano evoluir, crescer, melhorar… Na verdade, Dilma, sou o melhor produto dos meus próprios erros. Por isso vivo com a alma em paz. Quem já enfrentou a mais temida das doenças, como nós, não pode ter a alma e o coração em contínua ebulição. É preciso tranquilidade para deixar a vida seguir. Pense nisso, pois ainda há tempo de mudar de ideia e fazer algo por você e pelo Brasil, fugindo do script chicaneiro deixado por Lula.
Dilma, qualquer um, em suas conquistas, quer acertar. Você, assim como eu, também pensa assim. O problema é que você chegou ao principal gabinete do Palácio do Planalto e encontrou sobre a escrivaninha um roteiro de como deveria acertar. E seguir essa cartilha foi um erro irreparável. Diferentemente daquele que lhe inventou eleitoralmente, você não é uma pessoa de conhecimento obtuso, avessa à leitura e outros quetais ligados à falta de intelectualidade. E por causa disso sabe avaliar o estrago que o seu antecessor patrocinou ao País. Você já provou da peçonha da herança maldita deixada por Lula.
Dilma, você teve nas mãos a chance que mais da metade da nação gostaria de ter. A de colocar Lula e seus aloprados na cadeia, terminando com o período mais corrupto da história nacional. Mas não, você, emoldurada pela miopia ideológica, deixou-o solto e dando ordens, o que é pior. Abusado e embriagado também pelas benesses que o poder proporciona oficial e oficiosamente, Lula jamais se desvencilhou do cargo. Levou o que quis do Palácio do Planalto, mas lá, no gabinete que hoje você ocupa, deixou o desejo egoísta e tacanho de quem não quer largar a mamata. Até o mais ortodoxo dos comunistas faria o mesmo. Hoje Lula manda na prefeitura da mais importante cidade brasileira e quarta maior do planeta: São Paulo. Algo que os paulistanos já esperavam. Você pode até fingir desconhecimento, mas Lula é o co-presidente, como bem lembrou o jornalista Augusto Nunes em recente artigo.
Lula é lobo em pele de cordeiro, Dilma. Chamou para si a articulação política do seu governo, mesmo que não oficialmente, porque você é a sua próxima vítima. Oferecerá ajuda, no melhor estilo salvador da pátria, mas seu objetivo é derrubá-la. Mas vocês são vermelhos e por isso devem se entender.
O que não pode, Dilma, é mentir ao povo brasileiro, como Lula fez durante oito anos e você deu continuidade a essa utópica onda de mitomania. Dilma, um dia alguém, sabe-se lá por qual motivo, inventou a palavra planejamento, vernáculo que sua equipe insiste em ignorar. Não foi preciso qualquer dose de genialidade para perceber que a aposta de Lula no consumo interno, a partir de 2009, que teve o seu endosso, não acabaria bem. Você, como ministra da Casa Civil, sabia disso, mas silenciou diante do óbvio. Não bastasse, repetiu a receita, como se fosse a solução mágica para uma economia que patina de forma vergonhosa.
Dilma, reserve alguns segundos antes de dormir e pense. Lula administrou o Brasil como um dos botecos mequetrefes de porta de fábrica que ele frequentou nos tempos de sindicalismo. Fez das esmolas sociais a cachaça que levava a sua claque à inconsciência e o aplaudia como se ele fosse uma reencarnação de Messias. Lula é um histriônico com pinceladas de histeria que precisa estar em evidência o tempo todo. Para isso é capaz de tudo e mais um pouco. E esse “mais um pouco” você deve ver todos os dias sobre a sua escrivaninha. Uma vasta coleção de problemas, escândalos, desmandos, imbróglios, etc.
Muito bem, Dilma, o Lula e você reduziram o IPI dos automóveis e o Brasil se motorizou aos bolhões. As cidades foram invadidas por enxurradas de carros novos, que passaram a disputar espaço com os já existentes. Será que não deu tempo para pensar que essa nova frota precisaria de combustível para se movimentar? Parece que não! E a Petrobras, que vocês petistas disseram que seria privatizada pelos tucanos, teve de importar gasolina e vendê-la no mercado interno a preço subsidiado, acumulando prejuízos bilionários. Mas esse é um detalhe, não é mesmo Dilma, porque a inflação que Lula deixou como herança não poderia sair do controle. Se isso acontecesse, uma obra de ficção que foi vendida como a verdade derradeira iria pelo ralo.
Você também sabia que a inadimplência cresceria e que o endividamento das famílias atingiria níveis preocupantes. Mesmo assim, deixou a canoa furada seguir viagem, pois o mais importante era incensar Lula e garantir a sua eleição. Acreditando no messianismo de Lula, o povo saiu tresloucadamente às compras e deu vazão ao reprimido desejo de consumo. Pois bem, a reboque vieram os carnês e financiamentos e, em seguida, a inadimplência. Para camuflar a verdade, você ajudou a criar a nova classe média, com 40 milhões de incautos que não tiveram qualquer progresso na vida, mas hoje pelejam com os que cobram as prestações atrasadas. Eis a receita milagrosa que você e os companheiros inventaram e que deu a Lula inúmeros títulos de doutor honoris causa ao redor do mundo. Fosse eu o reitor de uma dessas universidades, já teria ido a São Bernardo do Campo para tomar-lhe a honraria.
Dilma, mesmo sabendo qual seria o conteúdo do seu discurso levado ao ar na noite de quarta-feira (23), parei para ouvi-la. Até porque sabia que você mais uma vez seria a minha fonte de inspiração. Você começou falando “queridas brasileiras e queridos brasileiros”. Por razões óbvias não me senti incluído nesse rol, pois não sou seu querido, como você não é a minha. Romântico incorrigível que sou, guardo na alma, no coração e no pensamento uma pessoa pra lá de queridíssima. Mas deixemos os amores de lado e passemos ao que interessa.
Você convoca a rede nacional de rádio e televisão e, como se dissesse a verdade máxima, afirma que a redução da tarifa de energia elétrica, em vigor a partir desta quinta-feira, é um fato inédito na história verde-loura. Vá lá, concordo com esse falso ineditismo, mas você bem sabe que esse anúncio é um embuste desmedido. A redução da tarifa de energia é resultado de uma compensação financeira que será paga às geradoras, que em seus cofres colocarão dinheiro do contribuinte. Tudo bem, a conta de luz do próximo mês virá com um valor mais baixo, mas o nosso dinheiro, que deveria ser investido em outras áreas, será usado para uma armadilha que você inventou e o PT exigiu. Não, Dilma, isso não é justo. E mentir é pecado! Até travestir a verdade ou omiti-la é aceitável, mas mentir…
Não contente, você disse “estamos ampliando o investimento na infraestrutura, na educação e na saúde e nos aproximando do dia em que a miséria estará superada no nosso Brasil”. Dilma, a infraestrutura do País é conhecidamente caótica e os investimentos no setor acontecem na velocidade de um jabuti. Falar em investimento na educação e na saúde é abusar da galhofa. E imagino que, pelo seu semblante sempre carrancudo, você não seja uma boa contadora de piadas e chistes. O pior ficou com o trecho em que você abordou a erradicação da miséria. Dilma, não se pode abordar esse assunto quando dois terços da população recebem menos de dois salários mínimos por mês. E o salário mínimo, prezada Dilma, com a sua preciosa ajuda vale hoje incríveis R$ 678. Não se preocupe, Dilma, o aluguel de um barraco na favela custa R$ 400.
Toda prosa, lendo o que aparecia à sua frente, você falou que em questões de energia elétrica “as perspectivas são as melhores possíveis”. Quem acreditou nas suas palavras foi o dono do mercadinho ao lado de casa, que reforçou o estoque de pilhas, lanternas, vela e lampiões. Quem diz que a situação energética brasileira é preocupante são seus assessores, não eu. Por isso considerei como abuso da sua parte, para não falar em mentira, a afirmação de que não há “risco de racionamento ou de qualquer tipo de estrangulamento no curto, no médio ou no longo prazo”. No apagão de novembro de 2009 você, destilando raiva de forma desmedida, disse a mesma coisa. E a profecia não vingou. Lembra-se disso, Dilma?
Dilma, de forma transversa você cometeu o mesmo erro de Lula e tentou empurrar o problema da energia elétrica que vivemos para os tucanos. Você sabe que a culpa não é do FHC, como também sabe que o seu partido não é uma reunião de herdeiros de Aladim. A história recente já mostrou, e a Justiça comprovou, que a “companheirada” tem ideias luminosas quando o assunto é corrupção. Veja o resultado do Mensalão do PT, o pilar criminoso que sustentou a aprovação de Lula nas alturas.
Você, prezada Dilma, errou ao condenar os que fizeram previsões realistas sobre a geração de energia no País no atual momento. “Surpreende que, desde o mês passado, algumas pessoas, por precipitação, desinformação ou algum outro motivo, tenham feito previsões sem fundamento, quando os níveis dos reservatórios baixaram e as térmicas foram normalmente acionadas”, disse você. Dilma, em sua fala você encontrou espaço para afirmar que as previsões fracassaram. Não estou convencido disso. A diferença entre eu, reles mortal que usa a lógica e decifra os fatos do cotidiano como eles se apresentam, e você está em um pequeno e enfadonho detalhe. Você tem à disposição um semideus pernicioso chamado Lula, que consegue conversar com São Pedro e descobrir na agenda celestial os dias que ocorrerão precipitações pluviométricas, as tais das chuvas, aqui nessa república de bananas em que se transformou o Brasil na última década. Dilma, adivinhar o que acontecerá na natureza é excesso de soberba. Tome cuidado, pois o salto alto costuma quebrar e Deus castiga, mesmo você não tendo qualquer simpatia por Ele.
Para quase finalizar, Dilma, e aproveitando para encurtar esse colóquio intimista, você abusa da mentira ao dizer que “o Brasil está cada vez maior e imune a ser atingido por previsões alarmistas”. Dilma, um país cuja economia cresce de maneira pífia nos últimos dois anos não dá direito a quem quer que seja de falar em alarmismo. Deixe o oportunismo rasteiro de lado. E você ainda emenda dizendo que “nos últimos anos, o time vencedor tem sido o dos que têm fé e apostam no Brasil. Por termos vencido o pessimismo e os pessimistas, estamos vivendo um dos melhores momentos da nossa história”. Dilma, o seu governo só não ruiu e o PT não desapareceu porque a massa pensante da população tem fé, muita fé, algo que não faz parte do seu cotidiano, sempre recheado de inverdades, pirotecnias e silêncios obsequiosos.
Dilma, ponha a mão na consciência por um instante apenas. Será mesmo que o Brasil vive um dos melhores momentos da sua história? A inflação está fora de controle, os preços subiram muito além do que o governo anuncia, as taxas de juro caíram a marteladas, o consumo está aquecido, a inadimplência continua alta, o endividamento é preocupante, os investimentos oficiais são pífios e a economia não decola. Essa é a sua receita de melhor momento, Dilma? Se for, pare o Brasil agora que eu quero descer, pular, me jogar, fazer qualquer coisa que me livre desse enredo macabro que Lula e você insistem em escrever. O meu raciocínio é deveras pequeno para alcançar a genialidade que une você a Lula.
Dilma, dificuldades todos passam. Pessoas, famílias, empresas, nações, governantes, e por aí vai. Quando estou com pouco dinheiro – e isso acontece com certa frequência porque integro o “Partido da Imprensa Golpista” e não recebo milionárias verbas oficiais para mentir ao povo -, conto a verdade aos meus filhos diante de eventual pedido que naquele momento não cabe na minha carteira. Não me envergonho disso e sei que eles se orgulham do pai que têm, não por causa do meu esforço contínuo e das quireras que carrego no bolso, mas porque sou coerente e digo a verdade. É por isso que consigo olhar nos olhos dos meus filhos, sem qualquer constrangimento ou peso na consciência, pois sei que luto diuturnamente por um Brasil melhor. E eles, os meus filhos, sabem disso.
Dilma, o seu neto, Gabriel, ainda é uma criança inocente, sequer alcança o que acontece atualmente no Brasil. Quando acaba a luz em Porto Alegre, o Gabriel nem imagina que a avó foi secretária estadual de Minas e Energia. Ele há de crescer, tornar-se um homem inteligente, informado e saberá da verdade. Os meus filhos – ainda não estou na fase dos netos como você, mas espero chegar lá – terão o que contar no futuro, depois do meu último suspiro (tem gente no PT que torce para que isso aconteça logo). Por sorte não cheguei ao poder, pois seria um vilipêndio à alma, à minha essência, aos meus valores e às minhas crenças. Lá adiante, o Gabriel, seu neto, também terá o que contar. A minha avó Dilma foi presidente da República. Na outra linha travessão.
Dilma, não queira entrar para a história pela porta do fundo, mas busque estar em paz com sua consciência e deixar um punhado de razões para o seu neto ter orgulho de você no futuro. Você já perdeu muito tempo, mas ainda assim é possível recuperar.
Aqui me despeço, Dilma, sem mais delongas, mas se você continuar insistindo no erro, até a próxima. E mesmo Nele você não crendo, peço a Deus que a ilumine, pois apagões de fé, assim como os elétricos, são normais.
Fonte:ucho.info