terça-feira, 8 de março de 2016

Pai da Facção quer guerra civil para transformar o Brasil em Nova Venezuela: Para Lula, única saída poderá ser criar um caos como na Venezuela. E essa é a razão.

Se você acessou qualquer noticiário político nas últimas horas, já deve ter entendido o que está acontecendo por aqui: o país está ainda meio grogue ante o maior embate político que se tem notícia nesse século. No centro dele, a figura do ex presidente Lula, levado para depor a um posto da PF no Aeroporto de Congonhas na última sexta-feira.
Sua condução coercitiva, embora tenha rendido elogios a respeito da solidez das nossas instituições a organizações como a Transparência Internacional, acendeu o alerta. Afinal, o que esperar do país daqui pra frente? É possível entender que esse é um divisor de águas? A julgar o comportamento do ex presidente nas últimas horas, o cenário parece previsível – e, contrariando as últimas perspectivas, tem tudo para criar o maior desafio já enfrentado às nossas instituições desde a redemocratização do país.
De todo caos, de uma coisa não resta dúvida: Lula levará a Lava Jato para o mais longe possível dos tribunais. Travará sua defesa nas ruas, nos palanques, com discursos inflamados que enalteçam seu governo e banalizem toda operação, com suas testemunhas e evidências, a uma mera perseguição pessoal e política. Foi isso que dedicou a fazer nas últimas horas – transformar tudo num ordinário jogo de disputa de poder, colocando a oposição e a imprensa num complô diabólico e mesquinho, como se houvesse um golpe das “elites brasileiras”, aquelas que sempre lhe apoiaram e financiaram, prontas para lhe derrubar. Para isso, subirá o tom.
“Vão ter que me enfrentar nas ruas deste país”, sentencia.
Assim, Lula será coroado antes de qualquer escrutínio: Luiz Inácio virará Luís XIV e qualquer ameaça de prisão soará como um golpe a uma eleição que ainda sequer chegou, uma tentativa de afastá-lo da disputa de 2018. Se acontecer algo no campo jurídico a partir daqui, não passará de uma mera picuinha burocrática. Dessa forma, Lula abandoná a posição de um criminoso qualquer, caso condenado, para se transformar num preso político de um Estado paradoxalmente governado pelo seu próprio partido. Cinicamente, dirá que é a Justiça quem está partidarizando o caso e levando a operação para o campo eleitoral. Será aplaudido copiosamente por parte do establishment político e sindical, pronto para criar um mártir para salvar as suas próprias posições e verá esse discurso repetido incansavelmente nas redes sociais por sua militância entorpecida.
E isso tudo acontecerá porque é o óbvio a ser feito: Lula não tem nada a ganhar com a Justiça ou o Fisco. Pelo contrário. Como um representante fidedigno do populismo latino-americano, dirá aos seus seguidores que tudo não passa de um complô de gente rica que não gosta de ver gente pobre ascendendo socialmente. Por isso seus passos são inevitáveis. Jogará a torcida contra Moro. Atacará os veículos de imprensa. Intensificará a radicalização política nas ruas. Para tentar ludibriar o fato de que a economia vive os piores resultados da história republicana – e sabendo que isso pesa mais do que qualquer outro fator como impulso às manifestações – dirá que tais resultados acontecem graças a uma tentativa de paralisação do governo de sua sucessora, orquestrado pelas elites. Colocará a culpa pela queda da economia, em partes, pela Lava Jato. Dirá que grandes empreiteiras, que sempre ajudaram a economia em seu governo, também estão sendo perseguidas, atrapalhando o desenvolvimento do país.
Na política, Lula encontrará sua zona de conforto. Na Justiça, levará às favas. Ou, como diz em alto e bom som no início de um vídeo de apoio gravado poucas horas após sua condução coercitiva à PF, pela deputada federal Jandira Feghali, do Partido Comunista do Brasil:

“Eles que enfiem no cu todo processo.”

Assim, as instituições do país amargarão toda horda de ataques nos próximos meses. E sofrerão o grande teste desde a redemocratização. Aqui, o Planalto terá dois caminhos muito claros a seguir. Ou transformará todo caso jurídico numa mera briga política, comprando o discurso de Lula e permitindo que o populismo direcione os rumos da Lava Jato, pressionando a operação. Ou pregará independência, correndo o risco de perder sua já combalida base de apoio, implodindo a relação da presidente com seu partido e forçando a uma nada amigável renúncia. Eis o dilema.
Na Venezuela, ante acusações de corrupção, violação dos direitos humanos e fraudes eleitorais, o impasse se repetiu na última década. Para coroar o legado redentor do chavismo e salvar a pele de seu establishment político, Maduro optou por solapar definitivamente as instituições do país, destruindo qualquer ideal republicano e intensificando um discurso muito parecido com que Lula utilizou nas últimas horas, em torno de um pretenso golpismo econômico e político das elites do país.
Na sexta, o atual mandatário venezuelano deixou mensagem de apoio ao companheiro:
“Lula, o caminho tem sido longo e não podem contigo, deste ataque miserável sairás ainda mais forte, a Venezuela te abraça.”
Héctor Rodríguez, chefe do bloco governamental no parlamento venezuelano, também expressou sua solidariedade:
“A Direita não tem limites, não acredita na democracia, hoje detém o companheiro Lula e sem nenhuma prova o acusam de corrupção. Ele foi detido porque lançou sua candidatura à presidência e tem mais de 70% de apoio.”


Evidentemente, como não haveria de ser diferente, o processo que instaurou o caos político na Venezuela não ocorreu do dia para a noite. Foi necessário um longo período de políticas econômicas desastrosas, desrespeito aos princípios republicanos e uma boa dose de populismo para alcançar o atual nível de deterioração. Mas se tem algo que a história do desenvolvimento das nações pode ensinar é que destruir instituições é um processo muito mais rápido e fácil do que fortalecê-las. E normalmente é no coração da política que isso acontece.
A solução para escaparmos disso tudo? Permitir que as forças republicanas atuem. A solidez institucional do país passa necessariamente por um processo de amadurecimento da nossa relação com os grandes players políticos. Para isso é preciso investir em modelos eficientes de combate à corrupção e lutar contra o histórico regime de anarquia que toma os homens públicos do país em detrimento dos reles pagadores de impostos. É preciso tirar também o tom político nas questões que cabem a Judiciário. Estado democrático de direito não é apenas respeito ao voto, mas ao império da lei, que é soberano: nele os mandatários políticos são submissos às leis promulgadas, e não o contrário. E sem independência essa é uma tarefa impossível.
Aqui, quanto mais inventarmos desculpas para não aceitarmos que os nossos homens públicos entrem no radar das investigações – seja Cunha, FHC ou Lula -, escondidos atrás de mesquinharias partidárias como se fossemos todos membros de torcidas organizadas, mais estaremos condenando o país à barbárie. Quanto mais aceitarmos que o populismo dê o tom da Lava Jato, aplaudindo os palanques de investigados que buscam manipular a opinião pública e corromper o império da lei, mais próximos estaremos de vivermos o caos político venezuelano.
Nada é tão ruim que não possa piorar.