quinta-feira, 5 de março de 2015

Venezuela: O Despontar da Tirania

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,o-despontar-da-tirania-imp-,1642422
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Diante da crescente agitação popular e da perspectiva de derrota nas eleições parlamentares, Maduro intensifica repressão



Foi uma operação em estilo militar, como as empreendidas para a prisão um perigoso líder do narcotráfico. Na tarde de 19 de fevereiro, dezenas de agentes do serviço de segurança da Venezuela, Sebin, entraram munidos de armas automáticas e de marretas (mas sem mandado de prisão) nos escritórios do 6.º andar de um edifício no bairro em geral tranquilo de El Rosal, em Caracas. Sua missão não era prender um delinquente, mas o prefeito da capital venezuelana, Antonio Ledezma, de 59 anos. 

Depois de permanecer sob a custódia da Sebin por um dia e meio, ele foi enviado para uma prisão militar onde aguardará processo, sob a acusação de conspirar para a deposição do governo do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Não é a primeira vez que o regime de esquerda prende um importante membro da oposição. Entre os companheiros de prisão de Ledezma, está Leopoldo López, que passou a maior parte do ano passado numa solitária por acusações semelhantes. A prisão de um prefeito eleito (embora seus poderes tivessem sido bastante reduzidos pelo governo) assinala uma nítida escalada da campanha de repressão do regime.

A prisão foi provocada pela publicação de um texto de página inteira num jornal independente, de autoria de Ledezma, López e María Corina Machado, outra líder aguerrida da oposição, pedindo a criação de um governo de transição de amplas bases (e implicando, portanto, a renúncia de Maduro). Segundo o presidente, este seria o prelúdio de uma tentativa de golpe, a última de uma série de conspirações que teriam sido armadas contra ele. O governo vinculou também Julio Borges, um moderado que lidera o maior partido da oposição, Primero Justicia, ao suposto complô, e pretende expulsá-lo do Parlamento.

A verdadeira razão da intensificação da repressão é provavelmente o temor do presidente, eleito por uma pequena margem em abril de 2013, depois da morte de seu predecessor e mentor, Hugo Chávez, de ser afastado do poder por meios legais. Desde então, as condições pioraram drasticamente na Venezuela. As medidas desastrosas do governo provocaram escassez de alimentos e de equipamentos médicos, longas filas nas lojas e a alta vertiginosa da inflação. Além disso, com o colapso dos preços do petróleo, praticamente a única fonte de divisas, o regime não pode arcar com o custo da recuperação. Os índices de aprovação de Maduro mal superam os 20%. De acordo com a Constituição, governo terá de realizar este ano as eleições parlamentares. Se a oposição ganhar, aumentará as chances de realizar um plebiscito para a revogação do mandato do presidente em 2016. Mas a prisão de Ledezma e a provável expulsão de Borges do Parlamento sugerem que o governo não tem a menor intenção de permitir que isso aconteça.

O endurecimento do regime vai ainda mais longe. Segundo Carlos Ocariz, presidente da Associação dos Prefeitos da Venezuela, 33 dos 78 prefeitos da oposição eleitos desde dezembro de 2012 enfrentam algum tipo de processo legal. María Corina é um dos quatro parlamentares da oposição (num total de 63) que já foram expulsos do Parlamento. Vários líderes dissidentes se encontram no exílio. O Copei, partido democrata-cristão, informou no dia 23 que homens armados ocuparam vários de seus escritórios enquanto o partido se preparava para apoiar a proposta de um governo de transição.


Cidadãos comuns conhecidos por se opor ao regime já não podem ocupar cargos públicos ou receber benefícios do governo. Uma mulher que se candidatara a um posto na administração pública disse que teve de responder se ela pertencia a algum partido político: "Se sim, qual?"

A exigência da renúncia imediata de Maduro e da instalação de um governo de transição é um tema polêmico na aliança da União Democrática (MUD), grupo formado por diversos partidos da oposição frequentemente pouco coeso. Seus fundadores foram os líderes de manifestações contra o governo, um ano atrás, que resultaram na morte de 43 pessoas de ambos os lados da fronteira política. López foi preso no início dos protestos. Moderados como Borges e Henrique Capriles, que foi derrotado por Maduro nas eleições presidenciais de 2013, eram contrários a eles.

Alguns acreditam que a prisão do prefeito pretende provocar uma nova onda de manifestações, com o intuito de aumentar por breve tempo a popularidade de Maduro, e forneceria a justificativa para uma maior repressão. Se o plano for este, a oposição é muito esperta para cair na armadilha. A violência "não levaria a nenhuma parte", escreveu Ledezma da prisão.
Os cidadãos comuns realizaram protestos contra o regime no dia 24 em razão da morte de um adolescente por uma bala, aparentemente de borracha, disparada por um policial numa manifestação organizada por estudantes. Mas os protestos contra a prisão do prefeito, como o ocorrido recentemente, não tiveram grande repercussão. Embora haja divergência quanto às táticas, o MUD está unido dada a necessidade de chegar ao poder pelo caminho democrático.

>Imediatamente após a prisão do prefeito, o MUD anunciou que, em maio, realizaria as primárias para a escolha de seus candidatos, exigindo que o tribunal eleitoral - controlado pelo governo - marque uma data para as eleições.

A aposta do MUD na democracia não seria tão quixotesca se os vizinhos da Venezuela e as organizações regionais estivessem dispostos a pressionar o regime com firmeza. Até o momento, mantiveram-se distantes enquanto os chavistas sufocavam a dissidência. A Organização dos Estados Americanos (OEA), por exemplo, rejeitou os pedidos da oposição de realização de um debate sobre as violações na Venezuela dos princípios democráticos do grupo.

As medidas repressivas adotadas ultimamente por Maduro provocam certo temor. Uma declaração do Brasil, embora branda, mostra que o país está preocupado. Os chanceleres de Brasil, Colômbia e Equador deverão visitar em breve Caracas. Eles e outros ministros do Exterior da União das Nações Sul-americanas (Unasul) se reunirão na ocasião para discutir soluções para a crise. Mas, para reverter a queda em uma ditadura, os vizinhos da Venezuela terão de ter firmeza. Até o momento, não foi o que demonstraram.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Reproduzido de:

O Estado de S.Paulo  -02 Março 2012 -02h05


fonte: http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,o-despontar-da-tirania-imp-,1642422