quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mario Vargas Llosa fala sobre política latino-americana em evento no Brasil

Nobel de Literatura pediu espera pela recontagem de votos na Venezuela.

Escritor peruano detecta na América Latina desilusão com o populismo.


William WaackSão Paulo, SP

Preocupado com o que chamou de óbvias fraudes, também escritor peruano Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura, pediu aos países latino-americanos que esperem pela recontagem dos votos na Venezuela. Vargas Llosa concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal da Globo em São Paulo, onde participou de um evento cultural.
Aos 77 anos de idade, Vargas Llosa acumulou prêmios literários e a sabedoria de quem, depois de se meter na política, prefere agora acompanhá-la de fora, mas fiel a um princípio: o das ideias liberais, que ele vê em maré crescente na América Latina, tão conhecida por experimentos populistas.
"A tendência na América Latina é a da democracia liberal, moderna, aberta ao mundo, que deixou para trás todas as ilusões estatizantes e coletivistas", afirmou Vargas Llosa.
O resultado das eleições na Venezuela, prosseguiu, é o princípio do fim do chavismo e do socialismo no século XXI. Maduro representa o final, a extinção do chavismo, a decadência de final de um experimento que foi muito prejudicial não só para a Venezuela, mas toda a América Latina pelos delírios messiânicos de Chávez, que queria exportar a revolução bolivariana para todo o continente.
Vargas Llosa lamenta que governos latino-americanos, como o brasileiro, já tenham reconhecido o resultado da eleição na Venezuela. "Acredito que a democracia latino-americana deveria se solidarizar com os democratas venezuelanos que estão lutando por uma sociedade livre como é o Brasil, o Chile e o Peru. Seus governos não podem ser tão contraditórios de, por uma parte, defender e respeitar a democracia e, de outra parte, apoiar uma operação claramente autoritária", diz.
De qualquer maneira, o escritor peruano detecta na América Latina uma grande desilusão com o velho populismo que, no caso da Venezuela, levou a divisões sociais ainda mais profundas. Ele reconhece que as ideias não estão muito em moda. "Os políticos não querem aparecer ao lado de escritores e sim de jogadores de futebol, cantores, com pessoas que pensam com os pés, como o senhor Maradona", afirma.
A culpa, diz Vargas Llosa, é dos próprios intelectuais latino-americanos, que abdicaram de participação na vida cívica, ou se abstiveram, como ele diz, de defender as boas opções. Mesmo assim, disse Vargas Llosa, os regimes como os de Cuba e Venezuela são exceções num subcontinente que é cada vez mais terra de liberdade do que de opressão. “O resto vai em uma boa direção e a América Latina está crescendo. Há razões para ser otimista", encerrou.