terça-feira, 30 de junho de 2015

Miséria vivendo no inferno:Fomos até um cortiço cubano e foi isso que encontramos por lá


Diz um velho ditado que o papel aceita qualquer coisa. Se não fosse um dito popular tão antigo, estaria certo que a Constituição cubana teria sido a fonte de inspiração dele.
A nossa Carta Magna nos diz que “o Estado realiza a vontade do povo trabalhador” e que “garante a dignidade plena do homem”, assim como “o desfrute de seus direitos”.
Assume-se que o Estado, como extensão do poder do povo, em seu serviço, trabalhe para que não haja família que não tenha uma moradia confortável.
Bem, quem visitar a comunidade “Las Delicias”, localizada em Mantilla, no município de Arroyo Naranjo, na cidade de Havana, se dará conta de imediato da grande sabedoria que envolve o velho ditado sobre aquilo que está escrito no papel.
Nesse lugar vivem aproximadamente 440 pessoas, entre elas um número considerável de crianças; 88 famílias que perderam suas moradias, na maioria dos casos por conta de desabamentos. Por tal motivo, as famílias foram realocadas temporariamente, de três a quatro meses, tempo em que as autoridades do governo se comprometeram em garantir-lhes novas moradias.
Muitas destas famílias, no entanto, já estão há 14 anos vivendo neste lugar.
Há poucos dias estive lá, e embora saiba que a semântica não seja capaz de descrever a extensão total da realidade vivida por estas famílias, tratarei muito brevemente aqui, através de suas próprias palavras, de dar-lhes uma leve ideia de como se vive neste lugar que ironicamente conceberam como Las Delicias.

MARÍA ELENA GONZÁLEZ SUAREZ:

“Tenho 44 anos. Sou a presidente do CDR no. 13 desta comunidade. Sou a mãe de duas crianças, uma com idade de 6 anos e outra de 12. O menor é diabético. Nós vivíamos num quarto de madeira em um bairro insalubre que em 2008 desabou. Vivi na rua até que encontrei uma casa que estava vazia por dois anos e a tomei. Após 7 meses vivendo nela, os funcionários da Vivienda me propuseram vir a este lugar por um curto período de tempo, de 3 a 4 meses, tempo pelo qual me garantiriam uma nova moradia. Já estou 7 anos vivendo nesta sujeira. Aqui, o esgoto polui a água potável e meu cubículo se inunda quando transbordam as fossas. O calor é insuportável pela falta de ventilação. No último mês de dezembro nos levaram para ver umas residências no município de Cotorro, que nos seriam entregues. Foi tudo uma mentira, uma mentira cruel. Com o passar do tempo fomos ao lugar e já haviam entregue as casas a outras pessoas.”



YANEISY MORALES:
“Minha casa desabou e me realocaram neste cortiço. Me disseram que seria por um curto período de tempo e já se vão 3 anos. Isto é um foco de doenças. Estão reportando casos de dengue e de cólera aqui. Tenho 2 filhos de 6 e de 8 anos, e o maior esteve há pouco tempo hospitalizado com pneumonia. O piso do meu cubículo é de terra e frequentemente se inunda com água pútrida. A umidade é imensa. E meu pai é deficiente físico.”


ALTINAY VALDÉS ZAMORA:

“Minha casa desabou e me trouxeram com mentiras, dizendo que isso se daria por pouco tempo. Estou indo para o quinto ano. Tenho 2 crianças com 8 e 15 anos, ambos asmáticos, e o mais novo tem úlcera. Se isso é pouco, há um mês ele foi internado com uma grave dengue mal tratada. Todas as condições que vivemos aqui são desumanas.



JUANA DE LA CARIDAD LABASTIDA MESA:

“Tenho 32 anos em cortiços, 9 neste. Me iludiram com a entrega de uma moradia, isso não se faz. Tenho 2 filhos de 6 e 8 anos, ambos asmáticos, e sofro vendo-os viver nestas condições deprimentes.”


ALOYMA VEGA:

“Tenho 14 anos morando em cortiços e me prometeram uma moradia em duas oportunidades. Era tudo mentira. Tenho 3 filhos, um de 4 anos com asma crônica, um de 11 anos com retardo mental e uma de 16 anos que está grávida. As condições de vida neste cortiço são de chorar.”




E assim também as famílias de Melba Tejeda Aguilera, Romana Pérez Penna, Noel Berrier Beato, Elizabetha Guerra Pérez, Vilmary Matías, Jennifer Gómez e muitas outras, condenadas, sem esperança alguma, vivendo no inferno.
Onde essas famílias poderiam ir para fazer valer seus direitos humanos e constitucionais, se sequer o sistema de justiça cubano tem concebido aos Tribunales de Garantías Constitucionales de onde desafogar essas violações?
Que esperança por justiça tem o povo cubano ante os responsáveis por tantas injustiças que os aflige?
* Nelson Rodríguez Chartrand é correspondente do Spotniks em Havana.

fonte: http://spotniks.com/fomos-ate-um-cortico-cubano-e-foi-isso-que-encontramos-por-la/

http://spotniks.com/a-situacao-das-moradias-em-cuba-jamais-foi-tao-precaria/