quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Como o dólar influencia na sua vida e na economia by RENATA BARRETO

 by RENATA BARRETO

Quem é deste mundo e não passou esse ano numa colônia de férias em Marte, sabe muito bem que o dólar tem subido de valor cada vez mais. Ontem, dia 15 de setembro, o dólar fechou a R$3,86, ou seja, só neste ano houve aumento de 45,66%. No acumulado em 12 meses, a alta já é de quase 65%. O que muita gente não sabe, é que não precisa fazer viagens ao exterior para sofrer os impactos da subida desta moeda. E isso vamos explicar aqui.
A primeira coisa que temos que ter em mente é que consumimos diariamente produtos que podem ter sido feitos com materiais ou matéria-prima trazidos do exterior. Acha que estou falando de perfumes franceses, queijos holandeses ou um videogame de última geração? Esses produtos sofrem aumento de preço também, mas há inúmeras coisas básicas e simples que fazem parte do dia-a-dia de todo brasileiro que são impactadas diretamente e indiretamente pelo preço do dólar.
Produtos que foram produzidos aqui mas precisaram de algum componente importado ou efetivamente foram produzidos no exterior e exportados ao Brasil. Isso inclui até mesmo o nosso tradicional pão francês, já que boa parte do trigo utilizado para produzi-lo (mais precisamente 60%) vem do exterior. Também há forte impacto no setor de energia, pois hoje o Brasil importa 50% de gasolina e gás natural consumidos internamente. Peixes, vinhos, remédios, eletroeletrônicos, roupas, sapatos, automóveis, passagens aéreas, tudo isso é afetado diretamente pela alta do dólar, pois possuem componentes importados ou são totalmente importados.
Quando há aumento generalizado de preços, há o que chamamos de inflação. Isso significa que o dólar tem impacto direto sobre a inflação, que é a responsável por corroer o poder de compra das pessoas. Imagine que você tem um salário de R$1000,00 e que gasta R$200,00 por mês no supermercado. Se os preços dos produtos que você consome subirem e o seu gasto com supermercado for para R$250,00 ao mês, isso significa que você perdeu seu poder de compra ao gastar mais pelos mesmos produtos e reduzindo o que sobra do seu salário que será destinado a outras coisas.
Além disso, existe a questão do endividamento das empresas em dólar, que pode ser repassado para o consumidor final. A Petrobrás, por exemplo, tem 83% da sua dívida em dólar. Até pouco tempo atrás, o governo segurou artificialmente o preço dos combustíveis justamente para que não houvesse impacto na inflação. Entretanto, por esta manobra, acabou causando prejuízos a companhia, já que esta comprava combustível por um preço e vendia por um preço menor do que o custo, resultando no que chamamos de operação deficitária.
Apesar de haver grande impacto negativo, há alguns setores que podem se beneficiar da alta da moeda. Os setores exportadores acabam ganhando competitividade e/ou incremento de margem, uma vez que os produtos produzidos aqui ficam mais baratos para serem comprados no exterior. Entretanto, apesar de ganharmos competitividade, o Brasil não investiu nas indústrias e na tecnologia para produção de bens de maior valor agregado. Somos predominantemente exportadores de commodities, que são matérias primas como soja, café, açúcar, minério de ferro, petróleo bruto, entre outros. Com a queda vertiginosa dos preços destes produtos, mesmo com aumento da exportação, os valores em termos reais são menores. Segundo estudo da Organização Mundial do Comércio, o Brasil sofreu uma queda de 7% em 2014, enquanto que a média mundial foi de crescimento de 1%. O fato de sermos majoritariamente exportadores de commodities, também nos faz depender de países como a China, que tem alta demanda por esta categoria. Quando há uma diminuição no crescimento do país, as exportações também caem.
Por outro lado, com um dólar bem mais caro (e também com a retração da economia), acaba havendo desestímulo à importação, ou seja, o brasileiro vai começar a dar preferência para o produto nacional, mesmo que tenha uma qualidade inferior por conta dos preços. Os setores mais afetados são os de bens intermediários e de bens de capitais, sendo que o mais atingido foi o setor automobilístico. Então, apesar de termos menos exportações, a importação está caindo em ritmo mais acelerado e ajuda no saldo da balança comercial. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, no comparativo entre agosto de 2015 e o mesmo mês do ano passado, tivemos uma queda de 24,33% na exportação e de 33,72% nas importações. O saldo da balança comercial entre estes mesmos meses variou positivamente em 132,24%. No ano, o superávit soma US$ 7,3 bilhões e a previsão do governo é de que ao fim de 2015 o superávit da balança comercial seja de US$12 bilhões.
Em economia, é importante analisar as consequências de todas as variáveis. Pode parecer algo muito distante da nossa realidade e dia-a-dia, mas na verdade todos somos atingidos.

Renata Barreto

Renata Barreto é economista, empresária, atua no mercado de capitais há 12 anos, com experiência em trading, estruturações e advisory, nos mercados doméstico e internacional.

fonte: http://breakinggoods.com.br/dicas/como-o-dolar-influencia-na-sua-vida-e-na-economia-2/