sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Para o Financial Times o Brasil é um “paciente na UTI”. E eles não sabem metade da história.


Poucas coisas são tão emblemáticas quanto a relação do governo brasileiro com a mídia estrangeira. Para o partido do governo, o PT, o que parece valer é exatamente o oposto daquilo que descrevia George Orwell, segundo o qual “jornalismo é dizer aquilo que não querem que você diga, todo o resto é propaganda”. Com a mesma velocidade em que se utiliza de capas favoráveis como a da The Economist com o Cristo Redentor decolando, governistas se apressam em dizer que capas negativas representam uma “intromissão dos estrangeiros na política brasileira”. 
No início de seu primeiro mandato, Dilma chegou a dizer que “nenhuma revista estrangeira irá fazê-la demitir um ministro”, algo que soou um tanto quanto irônico dado que as capas semanais da revista Veja derrubaram inúmeros ministros em seu mandato. Ao que parece, o problema reside sempre com os estrangeiros. Para a mídia, porém, isso raramente importa. Acostumados a manter uma visão e uma linha editorial clara, os jornais ingleses emitem opiniões com relativa frequência, sem se preocupar com o mito da imparcialidade.
Em uma das mais contundentes declarações recentes, o centenário Financial Times declarou que o caso brasileiro é o que se poderia chamar de “um paciente na UTI”. A análise do FT é profunda e certeira – retrata como nenhuma revista ou jornal brasileiro o peso de um Congresso inepto em meio a um ajuste fiscal sem qualquer preocupação em poupar o governo. Como vimos recentemente, o cenário é tão confuso que o próprio presidente do Partido dos Trabalhadores convocou seus militantes para protestar contra as políticas do governo. Em suma, o Financial Times comenta com grande precisão aquilo que temos comentado constantemente aqui. O tal ajuste fiscal, que busca equilibrar as contas destruídas pela primeira gestão Dilma, não é um ajuste de fato, mas algo, se me permitem a expressão, “para inglês ver”. O FT viu. E não acreditou.

Em um outro  momento, em seu primeiro mandato, Lula realizou um longo e profundo ajuste – chegou a bater orecorde de maior economia para pagar os juros da dívida em toda a história do país. A diferença para o ajuste atual reside exatamente no apoio. Lula contava com o apoio da sociedade, do seu partido, do Congresso e de uma ampla gama de economistas liberais em seu governo que garantiam credibilidade ao ajuste. Trata-se do exato oposto do governo Dilma.
Para a análise do Financial Times, o momento, que entra para a história como a segunda vez em que o Brasil tem uma dupla recessão econômica em 120 anos (a outra foi nos anos de 1930 e 1931, após a crise de 1929), possui causas bem nítidas no próprio governo. Trata-se não de uma consequência inesperada, mas de uma bomba plantada com esforço pelo próprio Planalto, e que agora encontra dificuldade em ser desarmada, graças a um governo fraco e um Congresso mais preocupado em salvar a si mesmo da operação Lava-Jato do que poupar a governabilidade.
Poucas coisas são tão emblemáticas quanto a relação do governo brasileiro com a mídia estrangeira. Para o partido do governo, o PT, o que parece valer é exatamente o oposto daquilo que descrevia George Orwell, segundo o qual “jornalismo é dizer aquilo que não querem que você diga, todo o resto é propaganda”. Com a mesma velocidade em que se utiliza de capas favoráveis como a da The Economist com o Cristo Redentor decolando, governistas se apressam em dizer que capas negativas representam uma “intromissão dos estrangeiros na política brasileira”. 
No início de seu primeiro mandato, Dilma chegou a dizer que “nenhuma revista estrangeira irá fazê-la demitir um ministro”, algo que soou um tanto quanto irônico dado que as capas semanais da revista Veja derrubaram inúmeros ministros em seu mandato. Ao que parece, o problema reside sempre com os estrangeiros. Para a mídia, porém, isso raramente importa. Acostumados a manter uma visão e uma linha editorial clara, os jornais ingleses emitem opiniões com relativa frequência, sem se preocupar com o mito da imparcialidade.
Em uma das mais contundentes declarações recentes, o centenário Financial Times declarou que o caso brasileiro é o que se poderia chamar de “um paciente na UTI”. A análise do FT é profunda e certeira – retrata como nenhuma revista ou jornal brasileiro o peso de um Congresso inepto em meio a um ajuste fiscal sem qualquer preocupação em poupar o governo. Como vimos recentemente, o cenário é tão confuso que o próprio presidente do Partido dos Trabalhadores convocou seus militantes para protestar contra as políticas do governo. Em suma, o Financial Times comenta com grande precisão aquilo que temos comentado constantemente aqui. O tal ajuste fiscal, que busca equilibrar as contas destruídas pela primeira gestão Dilma, não é um ajuste de fato, mas algo, se me permitem a expressão, “para inglês ver”. O FT viu. E não acreditou.
Em um outro  momento, em seu primeiro mandato, Lula realizou um longo e profundo ajuste – chegou a bater orecorde de maior economia para pagar os juros da dívida em toda a história do país. A diferença para o ajuste atual reside exatamente no apoio. Lula contava com o apoio da sociedade, do seu partido, do Congresso e de uma ampla gama de economistas liberais em seu governo que garantiam credibilidade ao ajuste. Trata-se do exato oposto do governo Dilma.
Para a análise do Financial Times, o momento, que entra para a história como a segunda vez em que o Brasil tem uma dupla recessão econômica em 120 anos (a outra foi nos anos de 1930 e 1931, após a crise de 1929), possui causas bem nítidas no próprio governo. Trata-se não de uma consequência inesperada, mas de uma bomba plantada com esforço pelo próprio Planalto, e que agora encontra dificuldade em ser desarmada, graças a um governo fraco e um Congresso mais preocupado em salvar a si mesmo da operação Lava-Jato do que poupar a governabilidade.
Bundles Of The Financial Times Newspaper Arrive At A Distribution Centre And Are Delivered Around London
A análise, porém, é bastante restrita no tempo. Os problemas políticos e econômicos do Brasil são históricos e bem enraizados. Aqui, não se trata de um mero caso de escândalo de corrupção que, como se sabe, é mais consequência que causa da inabilidade política. Historicamente os governos brasileiros se opõem por um falso dilema – o de que é preciso gerar estabilidade para então gastar e fazer a economia crescer. Esta é a razão de tantos governos realizarão ajustes que permitirão ao Planalto voltar a gastar até que um novo ajuste seja necessário.
Tal ideia se pauta em uma falsa lógica de que o crescimento deve ser induzido pelo governo; de que mais relevante do que se preocupar em garantir uma moeda forte, conter despesas para fazer os juros caírem, ser austero em gastos para permitir que as famílias gastem mais consigo mesmas, ser previsível em suas leis para permitir um melhor planejamento, é garantir aquela falsa ajuda ao capitalismo – que no fundo não passa de uma mera ajuda às grandes corporações.
Desde Vargas e seu BNDES, o governo brasileiro possui um certo fetichismo de que crescer é desenvolver a indústria. Em nome desta causa, o Planalto apoia medidas que retiram bilhões de reais dos bolsos dos trabalhadores anualmente para injetar em corporações como a Odebrecht e outras tantas, responsáveis por mais de 70% do crédito subsidiado do BNDES em determinadas áreas como exportações (ao todo, o subsidio do BNDES custará ao Tesouro R$ 38,6 bilhões apenas em 2016, cerca de 1,4 vezes o custo do Bolsa Família).
A ideia de que a economia se move não pela estabilidade, pelo aumento de poupança e confiabilidade do governo, mas pelos planos econômicos no melhor estilo de “planos quinquenais” (aqueles mesmos com os quais se planejava o desenvolvimento da União Soviética), levou o Brasil a vivenciar uma série de grandes planos, inevitavelmente frustrados pela incapacidade de gestão do próprio governo. Vimos um Plano de Metas, PND, PND II, Avança Brasil e as incontáveis versões do PAC, intercalados por tímidas versões de planos que pensassem o pequeno empreendedor, aquele responsável por 99% das empresas do país e que empregam 52% da força de trabalho. Somos um país de mais de 6 milhões de pequenos empresários que merecem menor atenção do governo que quatro famílias de empreiteiras.

Certamente não se pode negar que um ajuste macro tenha invariavelmente impacto em pequenos empresários. Seria tolice comparável aos defensores da ideia de que não se come PIB. Indicadores macros são importantes como um todo, mas certa atenção aos microempreendedores é vital. Cuidado com regras e instituições transparentes, e maior segurança jurídica, são parte importante para reaquecer a economia. E é justamente este o maior destaque do ajuste fiscal comandado pelo atual presidente do Insper, em 2005, que criou o empréstimo consignado e melhorou as regras de financiamento bancário, levando a um longo ciclo de crescimento do setor (ou você tinha ilusão de que foi o Lula quem fez isso?), interrompido apenas quando o governo decidiu inflar os números do setor com crédito artificial.
O artigo do FT peca em não distinguir estes pontos entre um ajuste que dá certo e um que fracassa, mas age de forma irrefutável ao demonstrar que o país se preparou extremamente mal para o momento de desaceleração da economia mundial e em um arrefecimento do crescimento chinês. Isto torna o cenário futuro bastante incerto quanto ao grau do estrago – o que sabemos apenas é que ele virá.
Apenas neste ano os gastos com juros devem superar R$ 480 bilhões, contra R$ 311 bilhões do último ano. O custo com o aumento da taxa de juros para conter a inflação e impedir que os empresários sigam o governo, que reajusta os preços controlados (gás, combustível, energia etc), tem seu peso. Cada 1 ponto percentual na taxa SELIC custa aproximadamente R$ 36 bilhões. A consequência é, como comentou o FT, um aumento expressivo na relação de endividamento do país, podendo chegar a 70% nos próximos anos, caso a recessão de 3% em 2015 e de 2% em 2016 se confirmem. Quanto menor o crescimento da economia, maior a necessidade de cortar gastos, o que dado o caráter obrigatório dos gastos públicos é algo cada vez mais difícil no Brasil.
Os economistas costumam diferenciar os cortes de gastos feitos pelo governo daqueles que você faz na sua casa através de uma única diferença. Toda vez que o governo corta gastos, ele gera menor demanda na economia, e assim reduz a produção, que reduz a arrecadação de impostos. Este é um dos fatores (questionável, dado que os gastos são muitas vezes artificiais). O outro e mais claro de se perceber é aquele ocasionado pelo aumento de impostos. Algumas pessoas costumam fazer contas de padaria – a velha regra de 3, definindo que se hoje arrecadamos R$ 100 com uma alíquota de 10%, ao dobrarmos a alíquota para 20%, arrecadaremos R$200. Porém, como a curva de Lafferdemonstra, ao se ampliar constantemente os impostos inevitavelmente se afeta a arrecadação – pois com mais impostos, menos é consumido e menos é arrecadado.
Isto explica parte da queda de arrecadação do governo, o que dá ao ajuste um peso muito maior do que teria se fosse feito em um momento de euforia econômica. Como uma reportagem recente demonstrou, o ajuste foi adiado em quase 1 ano, pois Dilma preferiu sacrificar as contas públicas em nome da reeleição.
Esta irracionalidade política é algo que a matéria do FT não conseguiu captar, certamente por seus jornalistas estarem acostumados a debates mais claros e a uma bem dividida linha política (entre conservadores e trabalhistas que se assumem como tal). O FT não foi capaz de perceber o jogo político brasileiro por inteiro. É esta falta de conexão do governo (o que inclui Legislativo, Judiciário e Executivo) com as ruas, com o dia a dia do país, que nos afasta de soluções verdadeiras, que melhorem nosso aspecto institucional e ponham um freio nos políticos e no estrago que eles podem ocasionar.
Enquanto o país espera por mais algumas décadas por uma reforma tributária que simplifique a cobrança e reduza o peso do governo sobre os mais pobres, uma reforma previdenciária que permita às pessoas serem donas do próprio futuro e não apenas uma fonte de renda para a gastança do governo (algo que, mude o sistema atual que se assemelha a pirâmides para um modelo de fundos de pensão), uma reforma que impeça o governo de criar dívida para privilegiar bancos, empreiteiras ou quem quer que seja (ou seja, uma lei de responsabilidade fiscal que sirva para a União),  seguiremos invariavelmente na UTI. Ou ainda pior. Independentemente do que a imprensa estrangeira diga ou deixe de dizer.
fonte: http://spotniks.com/para-o-financial-times-o-brasil-e-um-paciente-na-uti-e-eles-nao-sabem-metade-da-historia/