sexta-feira, 31 de julho de 2015

Medo da violência faz venezuelanos desistirem de lazer fora de casa

Assim como em 2013, Caracas foi no ano passado a segunda cidade mais violenta do mundo
 POR ISAAC GONZÁLEZ MENDOZA
27/07/2015 9:46 / ATUALIZADO 27/07/2015 10:17

                                            Filas se tornaram principal espaço de convivência em Caracas, diz psicóloga 
                                                                            CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS/21-7-2015



CARACAS — Assim como em 2013, Caracas foi no ano passado a segunda cidade mais violenta do mundo, com uma taxa de 116 homicídios para cada 100 mil habitantes, superada apenas pela hondurenha San Pedro Sula — onde há 171 assassinatos a cada 100 mil pessoas. No total, houve 3.797 homicídios na capital venezuelana. A lista das 50 cidades mais violentas do mundo elaborada pela ONG mexicana Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y Justicia Penal ainda traz outras três cidades venezuelanas: Valencia (7ª), Ciudad Guayana (12ª) e Barquisimeto
A insegurança fez que os espaços onde era possível se reunir com amigos se percam. Moradores da cidade entrevistados pelo “El Nacional” relataram que os bares agora fecham mais cedo.
— Antes fechavam por volta das 21h e agora fecham às 19h, porque não há mais ônibus, justamente pela insegurança — diz Carolina Ortega, do bairro de Montalbán, que agora prefere ficar em casa. — Já me roubaram muitas vezes, e estou cansada disso.
A falta de espaços de convivência também causa efeitos psicológicos traumáticos aos venezuelanos. Ana Gabriela Pérez, diretora da Escola de Psicologia da Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), disse ter percebido um aumento nos transtornos de síndrome de pânico e depressões, além de sintomas físicos relacionados a causas emocionais, como úlceras gástricas. Para ela, à medida que se reduzem os espaços de encontro, as pessoas se isolam e passam a ver o mundo de forma mais hostil.
— Há um impacto em cada indivíduo porque seus espaços de encontro com as demais pessoas se limitaram. Agora, os únicos lugares de encontro são as filas para comprar comida. Se você soma a isso um elemento de insegurança, as pessoas começam a sofrer uma série de sintomas psicológicos e emocionais, ansiedade, depressão e medos intensos— afirma.
No ano passado, Pérez orientou uma dissertação na Ucab que consistia em um estudo no município de Libertador (parte da Grande Caracas) sobre a percepção de risco em mais de 400 pessoas. Entre elas, 30% dizem já terem sido vítimas da criminalidade, e 20% acreditam que sofrerão no futuro um episódio de violência.

— Com o preço que estão as coisas, já seria preferível fazer reuniões em casa. Não só pelo preço, mas também pelo perigo — diz Manuel Aumitle, um músico que também viu sua profissão ser afetada pela redução das opções de vida noturna. — Muitas vezes tive que tocar com pressa porque os bares fecham cedo. Outras vezes, tenho que desistir de trabalhos porque sairia dos locais numa hora que não é simpática.

fonte: http://oglobo.globo.com/mundo/medo-da-violencia-faz-venezuelanos-desistirem-de-lazer-fora-de-casa-16972788