segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ex-presidente da Sete Brasil admite ter recebido quase US$ 2 mi de propina

Em carta enviada à companhia, João Carlos Ferraz afirmou ter recebido o valor ilícito entre maio e dezembro de 2013 em um "momento de fraqueza"


PRÓXIMO ALVO - O ex-presidente da Sete João Carlos Ferraz tinha contato estreito com Lula e com o ex-deputado André Vargas: na empresa, o interlocutor das empreiteiras era Barusco, homem-chave do esquema(Leo Pinheiro/Valor/VEJA)

O ex-presidente da Sete Brasil João Carlos Ferraz admitiu ter recebido um valor de 1,9 milhões de dólares em propina em carta enviada à direção da empresa em março deste ano, informa reportagem do jornal Folha de S. Paulo publicada nesta segunda-feira.
No documento, Ferraz afirma que aceitou as "gratificações" em um "momento de fraqueza", no qual era pressionado por colegas. A carta não traz informações sobre quem pagou o dinheiro e quem o pressionou. Nela, Ferraz ainda afirma que não pegou nada a mais do que declarou e que está disposto a devolver o dinheiro.

A Sete Brasil foi uma empresa criada pela Petrobras, em 2010, para administrar as sondas de exploração do pré-sal. Além da petroleira, ela tem como parceiros bancos e fundos de pensão estatais. Ferraz foi o primeiro presidente da Sete Brasil, ficando no cargo de dezembro de 2010 até maio de 2014. Segundo ele, as propinas foram recebidas entre maio e dezembro de 2013.

Na semana passada, Ferraz compareceu a uma audiência da CPI da Petrobras na Câmara dos Deputados e se recusou a responder às perguntas dos parlamentares.

Segundo o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, que também foi dirigente na Sete Brasil, Ferraz participava do esquema que desviava 1% dos contratos firmados pela empresa para a construção de sondas - e que tinham a Petrobras como cliente em quase 100% dos casos. Do valor, dois terços iam para o PT e um terço era dividido entre Barusco, Ferraz e Eduardo Musa, que era diretor de participações da Sete Brasil.

Após fazer auditorias internas, a companhia estima que as propinas totalizaram 224 milhões de dólares. No mês passado, a Sete Brasil abriu um processo, que corre em segredo de Justiça, contra Ferraz, pedindo uma indenização de 22,2 milhões de reais - o montante abrange os recursos desviados, sua indenização pela rescisão de contrato e os bônus pagos por desempenho no período em que trabalhou para a empresa.
Há cerca de duas semanas, ele tentou - em vão - chegar a um acordo com a Sete para encerrar o processo, comprometendo-se a devolver menos da metade do montante cobrado, o que os sócios da empresa rejeitaram. Na carta divulgada hoje, Ferraz afirma que, fora esse episódio, não há mais nada que possa "macular suas demais atividades" na companhia, realizadas com "zelo e competência".
Sob acordo de delação premiada, Barusco contou aos investigadores da Lava Jato que os dirigentes da Sete Brasil, incluindo Ferraz, combinaram o pagamento de propina com os estaleiros EAS, Brasfels, Jurong, Enseada e Rio Grande, responsáveis por fornecer sondas para a Petrobras explorar os campos do pré-sal.
A reportagem da Folha de S. Paulo tentou entrar em contato com Ferraz, mas ele não quis falar sobre o assunto.
(Da redação)